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SNACK BAR
Há cinco anos marquei um encontro com João neste bar. João não veio. O cenário é quase o mesmo, talvez hoje tenha ares mais decadentes, contudo, na aritmética simplificada do tempo, mais ganhou do que perdeu. Foi guardião austero dos restos de dores, das devorações aflitas, dos parasitismos e das diásporas. Sou capaz de sentir o soturno bolor da presença dos que aqui estiveram. Rumores de vozes no tilintar dos talheres, rangido de pés sobre as tábuas escuras dos ipês ancestrais aliados à minha impaciência em olhar, a cada dois minutos, para a porta de entrada.
Acomodo os olhos nos metais oxidados e recomponho a cor de cada coisa em seu tempo e lugar. Conheço o servilismo das cadeiras e mesas. Sei o que significam as ranhuras na madeira, a rachadura na louça, as camadas grossas de tinta para encobrir as roeduras no reboco. Conheço a porta do fundo. Porta de saída soturna, escada funcional, escuro. Conheço a umidade vinda das portas dos banheiros, do gotejamento das torneiras, dos respingados no chão, dos arabescos nos azulejos, do olor denso de cigarros com um misto de sabonetes, das conversas previdentes das mulheres. Tudo revela uma espécie de impossibilidade. Tudo revela a ausência grotesca de João.
João, aparentemente, não possuía um apuramento de inteligência. Coisa que eu não consegui discernir na época. A paixão ofusca os olhos. Mas sempre soube que ele era visual, plástico e com um talento brutal para desenhar mulheres. Mulheres com seios à mostra. Não sei em qual estética enquadraria sua arte, tampouco ele se preocupou em esclarecer qualquer traço. Talvez haja um pouco de surrealismo nos seios prateados, pintados à Monte Fugi, que parecem querer furar as dimensões da tela.
João suportava as críticas com sobriedade quando questionado sobre as opções estéticas arriscadas. Dizia que seu trabalho era empírico, baseado nas experiências. Mas era um discurso falso, porque ele era um fino entendedor da história da arte. Mais um filósofo do que um pintor, o que permitia um jogo duplo. Por um lado, certo charme ao fingir uma ignorância que não tinha. Por outro, um aviso bem claro, não estava interessado no pedigree de suas idéias ou no pedantismo da crítica.
Não sei se foi por isso que me apaixonei. Sei que todas as mulheres do meu círculo de convivência queriam estar com ele, queriam envelhecer ao lado dele a ouvi-lo sublinhar os discursos com aquela simplicidade franciscana. Eu também quis. Mais que isso, escorreguei lentamente pelo inverno da espera. Um dia, como por acaso, cruzamos olhares. Por certo percebeu que fui eu que atravessei seu campo de visão, sem deixar outra escolha que não fosse a de me encarar. E, se não cheguei a impressionar, mereci ao menos um suave elogio por meus traços selvagens. Mais tarde, quando disse que eu era i-nes-que-cí-vel, as sílabas arranharam meus desejos mais secretos e eu já adivinhara a possibilidade de uma dor. Quis pedir garantias, salvaguardar o futuro... mas não proferi palavras. João não era dado a essas sutilezas provocadas pelos rasgos da imaginação e eu não queria desmotivá-lo àquela altura.
Voltaríamos a conversar, neste bar, na tarde do domingo. Ele não apareceu. A propósito de qualquer coisa, e tentando esboçar um argumento que me fizesse conformar e aquietar o coração, balbuciei: “é a vontade divina”. A frase entrou, num loop qualquer, dentro do meu cérebro, repetindo-se em várias espirais. Meio tonta, despedi-me, solitariamente, do lugar e da idéia de amá-lo. João ficou famoso, eu me encalhei em alguma idéia por aí, o que não tem importância nenhuma. Olho para o quadro na parede com a sua assinatura. Não sei mais se o admiro. Uma mulher de ângulos fortes, selvagens e olhos de um verde oliva que só eu conheço. Está sentada a olhar-me como se eu fosse o amanhã. Eu a olho como se fosse ontem, como se fosse há cinco anos...
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